No atual cenário digital, os ataques cibernéticos à cadeia de suprimentos estão entre as ameaças mais preocupantes para organizações de todos os setores, especialmente o financeiro. Foi relatado um aumento de 431% entre 2021 e 2023. Um crescimento impressionante em apenas dois anos.
À medida que bancos, fintechs e adquirentes se tornam cada vez mais dependentes de terceiros para entregar serviços ágeis e inovadores, eles também expõem suas operações a novos riscos.
Esse tipo de ataque pode comprometer a integridade de softwares, hardwares, integrações e processos fornecidos por parceiros, impactando diretamente a segurança e a confiança dos clientes.
Entender como funcionam, porque se intensificaram, quais vetores exploram e como mitigá-los é essencial para preparar sua empresa.
O que são ataques à cadeia de suprimentos?
Os ataques à cadeia de suprimentos ocorrem quando criminosos exploram vulnerabilidades de fornecedores, parceiros ou prestadores de serviços para infiltrar-se em uma organização-alvo.
Em vez de atacar diretamente a empresa, eles comprometem componentes utilizados por ela, como softwares, equipamentos ou serviços em nuvem, que já possuem acesso autorizado ao ambiente interno.
Por serem sofisticados e difíceis de detectar, esses ataques representam uma séria ameaça, pois podem permanecer invisíveis por meses, permitindo que os invasores coletem informações, sabotem sistemas ou lancem ataques em larga escala sem chamar atenção imediata.
Por que esses ataques estão crescendo?
Esse tipo de ataque tem ganhado cada vez mais espaço no arsenal dos cibercriminosos. Há diversos fatores que explicam esse crescimento.
Explosão no volume de ataques
De acordo com a insurancebusinessmag.com, ataques à cadeia de suprimentos aumentaram 431% entre 2021 e 2023, um crescimento impressionante em apenas dois anos. E a tendência segue acelerada: em 2024, o número de ataques semanais subiu 179% em relação ao ano anterior, segundo dados de mercado. Esses números refletem a atratividade dessa técnica para os cibercriminosos e a fragilidade das conexões entre empresas e fornecedores.
Dependência de terceiros
O ecossistema digital moderno é altamente interdependente. Instituições financeiras, por exemplo, contam com uma vasta rede de fornecedores de tecnologia, serviços em nuvem, soluções de pagamentos e sistemas integrados. Cada novo parceiro amplia a superfície de ataque.
Complexidade e interconexões
A transformação digital acelerada trouxe consigo ambientes extremamente complexos, baseados em APIs, microsserviços e arquiteturas híbridas. Essa complexidade torna difícil mapear todos os pontos de risco e monitorar cada conexão estabelecida.
Falhas na verificação de segurança de fornecedores
Apesar da alta dependência de terceiros, muitas empresas ainda falham em auditar corretamente seus fornecedores ou em exigir padrões mínimos de segurança cibernética, abrindo brechas para invasões.
Quais são os principais vetores desses ataques?
Os ataques à cadeia de suprimentos podem se materializar por diferentes caminhos.
Softwares comprometidos
Invasores inserem códigos maliciosos em atualizações de softwares ou bibliotecas utilizadas por muitas organizações. Foi o caso do ataque à SolarWinds, que impactou milhares de empresas globalmente.
Hardware malicioso
Dispositivos eletrônicos adulterados ainda na fábrica ou durante o transporte podem chegar à empresa já comprometidos, com chips ou firmwares manipulados para espionagem ou sabotagem.
APIs e integrações não monitoradas
APIs vulneráveis ou mal configuradas permitem que atacantes abusem das conexões entre sistemas, acessando dados ou controlando funcionalidades sem a devida autorização.
Acesso indevido via terceiros
Muitos ataques ocorrem porque credenciais de um fornecedor ou prestador são roubadas e usadas para acessar o ambiente da empresa, explorando permissões concedidas de forma excessiva.
Como mitigar os riscos de ataques à cadeia de suprimentos?
Mitigar esses riscos exige um conjunto abrangente de práticas e tecnologias.
Auditoria de segurança de fornecedores
Antes de contratar ou renovar contratos com terceiros, realize auditorias rigorosas para avaliar se as práticas de segurança e privacidade desses fornecedores atendem aos padrões exigidos pelo seu negócio.
Gestão de identidade e acesso (IAM)
Implemente controles robustos para gerenciar quem acessa o quê, com autenticação multifator e baseando as permissões no princípio do menor privilégio.
Atualizações e validações contínuas
Garanta que todos os softwares, dispositivos e integrações sejam atualizados regularmente com patches de segurança, e valide cada atualização antes de aplicá-la em produção para reduzir riscos.
Monitoramento e resposta a incidentes
Mantenha monitoramento contínuo das atividades de rede e de sistemas, com capacidade para detectar comportamentos anômalos e responder rapidamente a qualquer incidente.
Uso de ferramentas de Threat Intelligence
Aproveite soluções de inteligência de ameaças para se manter atualizado sobre novas campanhas direcionadas à cadeia de suprimentos, vulnerabilidades emergentes e padrões de ataque observados em outros setores.
Gestão de vulnerabilidades
Implemente um processo contínuo de identificação, priorização e correção de vulnerabilidades conhecidas em sistemas próprios e de terceiros. Utilize scanners automatizados, bases de dados como CVE e frameworks de segurança como o CVSS para orientar decisões de correção conforme o risco real.
Análise de superfície de ataque
Mapeie detalhadamente todos os ativos, conexões e pontos de entrada expostos ao ambiente externo, inclusive os provenientes de fornecedores. A visibilidade sobre a superfície de ataque é essencial para antecipar possíveis vetores de invasão e aplicar defesas direcionadas.
Normas e regulamentações aplicáveis
Para se proteger e estar em conformidade, é fundamental alinhar suas práticas às principais normas internacionais e regulamentos nacionais.
NIST SP 800-161
Apresenta controles e práticas para gerenciar riscos à cadeia de suprimentos, organizados em temas centrais como: identificação e mapeamento de todos os fornecedores e subfornecedores, classificação de ativos de acordo com sua criticidade para as operações, avaliação contínua do risco de cada parceiro e definição de requisitos de segurança já nos contratos de aquisição.
A norma orienta a realizar due diligence para verificar a postura de segurança dos fornecedores, estabelecer métricas para monitorar seu desempenho ao longo do tempo e implementar cláusulas contratuais para mitigar riscos. Também recomenda a segmentação da cadeia por níveis de confiança e planos de contingência caso um elo seja comprometido.
Entre os requisitos estão: garantir autenticidade e integridade de hardware e software adquiridos, auditar as práticas de segurança física e lógica do fornecedor, exigir comprovações periódicas de conformidade e monitorar continuamente mudanças no ecossistema que possam afetar a postura de risco.
A SP 800-161 propõe um ciclo de gestão contínua: planejamento da estratégia, execução de processos, verificação periódica dos controles implementados e ajustes para melhorar a resiliência da cadeia frente a novas ameaças.
Ela é particularmente utilizada em ambientes que precisam atender altos padrões de segurança, como agências governamentais e instituições financeiras.
ISO/IEC 27036
É uma norma internacional da família ISO/IEC 27000, que trata especificamente da Segurança da Informação em relacionamentos com fornecedores. Ela é dividida em quatro partes, cada uma abordando aspectos diferentes dessa relação:
- Parte 1: visão geral e conceitos
Introduz conceitos fundamentais e define os objetivos gerais da segurança em relações contratuais com terceiros. - Parte 2: requisitos
Detalha os requisitos que devem ser atendidos por todas as partes envolvidas para garantir que a segurança da informação seja mantida ao longo de toda a relação comercial. - Parte 3: diretrizes para segurança em aquisições
Foca em como incluir requisitos de segurança já na fase de aquisição de produtos ou serviços, garantindo que as expectativas de segurança estejam claras desde o início. - Parte 4: diretrizes para segurança em relacionamentos baseados em nuvem
Especifica recomendações para proteger informações quando serviços em nuvem são contratados, incluindo obrigações do provedor e do cliente.
A ISO/IEC 27036 fornece uma estrutura completa para que as organizações estabeleçam contratos mais seguros, promovam avaliações de riscos de fornecedores, gerenciem mudanças ao longo do tempo e acompanhem continuamente a conformidade dos parceiros.
Além disso, ela ajuda a alinhar as práticas da empresa às exigências legais e regulatórias em vigor, facilitando auditorias e reforçando a confiança entre as partes envolvidas.
Requisitos de compliance para empresas brasileiras
No Brasil, além da LGPD, instituições financeiras devem seguir regras do Banco Central e recomendações específicas para proteger a infraestrutura crítica e garantir a continuidade do serviço.
Validação da cadeia de suprimentos no setor financeiro
O setor financeiro é particularmente sensível a ataques à cadeia de suprimentos devido ao seu ecossistema altamente interconectado e ao elevado volume de transações processadas diariamente.
A validação contínua da cadeia de suprimentos se torna, portanto, um pilar essencial para garantir a resiliência do sistema financeiro.
Validar a cadeia de suprimentos no setor financeiro vai além de auditorias pontuais. É preciso estabelecer processos permanentes para avaliar a postura de segurança de todos os parceiros e fornecedores, identificando lacunas e cobrando medidas corretivas.
A automação desses processos com o uso de ferramentas de gestão de risco ajuda a monitorar em tempo real os níveis de conformidade e a reduzir os riscos associados a terceiros.
Como validar a cadeia de suprimentos no setor financeiro?
Para implementar uma validação eficaz da cadeia de suprimentos no setor financeiro, é importante estruturar o processo em etapas contínuas e bem definidas. A seguir, veja as principais práticas recomendadas:
- Mapeie todos os fornecedores e subcontratados
Comece identificando todos os parceiros que têm algum papel nos seus processos críticos, incluindo fornecedores diretos, subcontratados, integradores de sistemas e prestadores de serviços em nuvem. Essa visibilidade é fundamental para priorizar os esforços de validação. - Classifique os fornecedores por criticidade
Nem todos os fornecedores apresentam o mesmo nível de risco. Classifique-os com base no impacto que eles teriam em caso de comprometimento — por exemplo, fornecedores de software de pagamentos ou de data centers são mais críticos do que fornecedores de serviços auxiliares. - Defina requisitos de segurança mínimos
Formalize os requisitos que todos os parceiros devem cumprir, incluindo políticas de segurança, controles técnicos, certificações (como ISO 27001 ou PCI DSS), auditorias externas periódicas e notificações de incidentes em prazos pré-acordados. - Realize due diligence e auditorias regulares
Avalie os fornecedores antes da contratação e repita avaliações periódicas para garantir que as práticas de segurança sejam mantidas ao longo do tempo. Utilize questionários detalhados, verificações de evidências e até auditorias in loco para confirmar as informações. - Monitore continuamente os riscos
Implemente ferramentas de gestão de riscos e monitoramento contínuo que forneçam indicadores atualizados da postura de segurança dos fornecedores. Isso permite detectar mudanças inesperadas ou novas vulnerabilidades que possam impactar sua organização. - Formalize contratos com cláusulas de segurança
Inclua cláusulas contratuais que estabeleçam responsabilidades claras para os fornecedores em caso de incidentes, prazos para notificação e a obrigação de corrigir falhas identificadas. - Implemente planos de contingência
Tenha planos definidos para substituir rapidamente um fornecedor em caso de falha crítica ou incidente de segurança. Isso aumenta a resiliência da sua operação frente a interrupções.
Como preparar sua empresa para ataques futuros?
A evolução constante das ameaças torna inevitável investir em resiliência. Para isso, as organizações precisam revisar regularmente seus planos de resposta a incidentes, aprimorar as políticas de segurança, treinar suas equipes para lidar com novas táticas de ataque e atualizar continuamente seus processos para lidar com ameaças emergentes.
Estar preparado é uma vantagem competitiva que protege não apenas os ativos da empresa, mas também a confiança de clientes, parceiros e reguladores.





