Escrito por Darlin Fernandes
A digitalização da vida cotidiana trouxe inúmeras facilidades, mas também abriu espaço para um crescimento sem precedentes das fraudes digitais. O Brasil está entre os países mais afetados: um levantamento da Serasa Experian (2024) apontou que 51% dos brasileiros já foram vítimas de fraudes digitais, e 20% relataram perdas financeiras de até R$ 5 mil.
Em datas de alto tráfego digital, como a Black Friday, os criminosos aproveitam o aumento das transações online para aplicar golpes e explorar vulnerabilidades em sites e aplicativos.
Para indivíduos, as consequências vão desde o roubo de identidade até prejuízos financeiros diretos. Para empresas, os impactos incluem multas regulatórias, perda de clientes e danos reputacionais.
Nesse contexto, compreender os mecanismos de fraude e as estratégias de proteção é essencial para manter a confiança e a segurança no ambiente digital.
O que são fraudes digitais em celular e web?
Fraudes digitais são golpes ou técnicas maliciosas que exploram tanto vulnerabilidades tecnológicas quanto comportamentais. No ambiente mobile, por exemplo, criminosos aproveitam permissões excessivas de aplicativos ou mensagens falsas para enganar as vítimas. Já na web, exploram falhas de autenticação, páginas clonadas e até scripts maliciosos em sites legítimos.
É importante diferenciar:
- Fraudes voltadas a usuários finais: sequestro de contas de WhatsApp, roubo de credenciais bancárias, clonagem de SIM card, etc.
- Fraudes que afetam empresas: comprometimento de sistemas, vazamento de dados sensíveis, manipulação de formulários em e-commerces, exploração de cookies de sessão, etc.
Ambos os cenários compartilham um ponto em comum: exploram a confiança do usuário e a fragilidade de controles de segurança mal aplicados.
Tipos mais comuns de fraudes em celulares
As fraudes em dispositivos móveis se multiplicaram, acompanhando a popularização dos smartphones. Os principais tipos incluem:
Smishing (phishing via SMS ou apps de mensagem)
Golpistas enviam links maliciosos que direcionam para páginas falsas de bancos, lojas ou serviços digitais. Segundo a Kaspersky (2024), houve um aumento de 70% nos ataques a celular na América Latina entre 2023 e 2024, sendo que apenas no Brasil cerca de 1,8 milhão de tentativas foram bloqueadas.
Aplicativos falsos e maliciosos
Na Play Store ou App Store, criminosos publicam apps disfarçados de utilitários que instalam spyware ou trojans para roubar dados. Em 2023, a Google removeu mais de 1,4 milhão de apps maliciosos (Google, 2024).
Clonagem de SIM card (SIM swap)
Esse é um golpe no qual criminosos transferem o número da vítima para outro chip, interceptando autenticações por SMS. Esse ataque está por trás de muitos sequestros de contas bancárias no país.
Sequestro de contas (redes sociais e bancos)
Trata-se de fraudes que miram contas de WhatsApp, Instagram ou aplicativos financeiros. A BioCatch (2024) reportou que metade das fraudes bancárias digitais no Brasil envolvem celulares roubados.
Malware mobile
Softwares maliciosos, que se instalam via downloads ou links suspeitos e monitoram atividades, capturam senhas e até gravam telas durante acessos a apps de bancos.
Fraudes mais comuns em ambientes web
Se o celular é a porta de entrada mais usada, a web segue sendo terreno fértil para golpes digitais. Entre os principais tipos:
Phishing tradicional e spear phishing
Links enviados por e-mail ou redes sociais direcionam usuários para páginas falsas. O spear phishing é mais sofisticado, mirando vítimas específicas com mensagens personalizadas.
Sites falsos e spoofing
Cópias idênticas de páginas de bancos, e-commerces ou serviços públicos, criadas para capturar credenciais.
Roubo de cookies e sessões
Ataques que sequestram tokens de sessão, permitindo que criminosos acessem contas sem precisar de senha.
Formjacking
Inserção de scripts maliciosos em sites de e-commerce para capturar dados de cartão de crédito durante pagamentos online.
Fraudes em transações financeiras
Desde transferências não autorizadas até manipulação de sistemas de pagamento. Em 2024, o LexisNexis True Cost of Fraud apontou que, para cada real perdido em fraude, empresas brasileiras gastam R$ 3,59 adicionais em recuperação.
Impactos das fraudes digitais
As consequências das fraudes em celulares e na web são profundas, atingindo tanto usuários individuais quanto organizações inteiras. Elas não se limitam à perda imediata de dados ou dinheiro, mas trazem efeitos prolongados que podem comprometer a confiança, a privacidade e até a estabilidade de negócios.
Para usuários
Quando um usuário é vítima de fraude digital, os impactos podem ser devastadores. O roubo de dados pessoais, como documentos, informações bancárias ou credenciais de login, muitas vezes leva a prejuízos financeiros diretos.
Mas o problema não para por aí: com essas informações, criminosos podem assumir identidades digitais, realizar compras, solicitar créditos ou até aplicar golpes em terceiros em nome da vítima.
Além disso, recuperar contas comprometidas, como no caso de invasões em e-mails ou aplicativos de mensagens, pode ser um processo demorado e burocrático, que traz não apenas perda de tempo, mas também desgaste emocional. Muitas vezes, mesmo após a recuperação, os danos à privacidade já são irreversíveis.
Para empresas
Já no contexto corporativo, os impactos vão muito além da perda de dados. Um ataque bem-sucedido pode manchar a reputação da marca de forma irreparável, fazendo clientes e parceiros perderem a confiança na capacidade da empresa de proteger suas informações.
Além do custo direto com investigação e recuperação — que pode incluir contratação de especialistas, restauração de sistemas e compensações financeiras a clientes prejudicados — existe o risco regulatório.
Além disso, períodos de indisponibilidade de serviços podem comprometer operações inteiras, especialmente em datas estratégicas como a Black Friday, quando qualquer minuto de instabilidade pode significar perdas gigantescas em vendas e oportunidades de negócio.
Como se prevenir contra fraudes em celular e web
A prevenção contra fraudes digitais é, acima de tudo, uma responsabilidade do indivíduo. Com o crescimento do uso de smartphones como ferramenta central na vida pessoal e profissional, os ataques se tornaram mais direcionados, sofisticados e disfarçados.
Por isso, quem usa o celular como meio de pagamento, autenticação, armazenamento de dados ou comunicação deve adotar medidas práticas para se proteger de armadilhas cada vez mais comuns. Veja, a seguir, as principais boas práticas de segurança digital:
Ative a autenticação multifator (MFA)
A autenticação multifator é uma das defesas mais eficazes contra invasões de conta. Mesmo que um criminoso consiga sua senha por meio de vazamentos ou engenharia social, ele ainda precisará de um segundo fator para conseguir o acesso — geralmente um código temporário enviado ao seu celular ou uma autenticação biométrica.
Sempre que possível, ative a MFA em serviços como e-mails, bancos, redes sociais e mensageiros.
Use biometria para abrir aplicativos sensíveis
Muitos aplicativos, especialmente de bancos, carteiras digitais, armazenamento em nuvem e redes sociais, permitem configurar autenticação biométrica (digital ou facial) como requisito de abertura. Essa barreira extra evita que, mesmo com o celular desbloqueado, um invasor consiga acessar aplicativos com dados financeiros ou pessoais.
O ideal é configurar todos os apps sensíveis para exigirem biometria no primeiro acesso, não apenas para transações.
Desative a alteração da conta Apple pelas configurações
No iPhone, uma das práticas mais importantes para evitar sequestros de conta é desativar a opção que permite alterar o ID Apple apenas com senha. Essa funcionalidade permite que um criminoso, ao ter acesso ao seu aparelho e senha, troque a conta vinculada e impeça que você recupere o controle do dispositivo.
Desabilitar essa opção adiciona uma camada de proteção essencial contra golpes que envolvem furto de celular e invasão da conta Apple.
Verifique se há rastreamento ou espionagem ativada
Golpes que envolvem monitoramento remoto ou rastreamento silencioso do celular estão se tornando cada vez mais comuns, especialmente em casos de relacionamentos abusivos ou roubo de dados. Por isso, é importante verificar com frequência se há apps desconhecidos com permissões excessivas ou configurações de localização ativas sem explicação.
Em Android e iOS, há seções específicas nas configurações que mostram quais apps têm acesso à localização, câmera, microfone e outras funções críticas.
Habilite o recurso “Find My Device” (Apple ou Android)
O “Buscar iPhone” (iOS) e o “Encontre Meu Dispositivo” (Android) são recursos nativos que permitem rastrear, bloquear e apagar remotamente o conteúdo do celular em caso de perda ou roubo.
Essa medida simples pode evitar não apenas prejuízos financeiros, mas a exposição de dados sensíveis e o comprometimento de contas logadas no dispositivo.
Instale um antimalware para celular
Embora muitas pessoas associem antivírus apenas a computadores, o uso de antimalwares especializados para celular é altamente recomendado.
Esses aplicativos podem detectar comportamentos suspeitos, proteger contra aplicativos maliciosos, escanear links e anexos antes de abri-los e até mesmo alertar sobre tentativas de phishing. Há opções gratuitas e pagas de excelente qualidade nas lojas oficiais.
Cuidado com links e mensagens suspeitas
O smishing, como vimos anteriormente, é um dos métodos mais utilizados para capturar credenciais e instalar malware nos celulares das vítimas. Mensagens com tom urgente (“pagamento pendente”, “clique para liberar entrega”, “último aviso antes de bloqueio”) ou com comprovantes falsos em anexo, como PDFs ou imagens contaminadas, são extremamente perigosas.
Inclusive, esse tipo de golpe via WhatsApp com envio de comprovantes maliciosos tem sido usado com frequência no Brasil, e foi abordado com mais profundidade pelo nosso time no SegInfo.
Sempre que receber mensagens suspeitas, mesmo que pareçam ser de alguém conhecido, confirme por outros meios antes de clicar ou abrir arquivos.
Mantenha o sistema e os apps sempre atualizados
Atualizações de sistema e aplicativos não são apenas melhorias visuais ou funcionais: elas corrigem falhas de segurança conhecidas.
Ignorar atualizações é como manter uma porta destrancada. Muitos ataques se aproveitam justamente de versões desatualizadas para explorar vulnerabilidades já identificadas pelos fabricantes. Ative as atualizações automáticas sempre que possível.






