Escrito por Leonardo Pinheiro
A Inteligência Artificial (IA) tem sido uma força revolucionária no mundo digital, impulsionando inovações em praticamente todos os setores. No entanto, ao mesmo tempo que oferece novas oportunidades, a IA generativa (capaz de criar conteúdo realista, como textos, vozes, imagens e vídeos) tem sido usada de forma maliciosa por cibercriminosos.
Nos últimos anos, fraudes digitais alimentadas por IA cresceram de forma acelerada. De acordo com a McAfee (2024), uma pessoa média já se depara com cerca de 2,6 vídeos deepfake por dia, enquanto jovens de 18 a 24 anos veem até 3,5 por dia, mostrando como a manipulação digital se tornou parte do cotidiano online.
Esse crescimento no uso de IA por criminosos coloca indivíduos, empresas e governos em alerta, exigindo novas camadas de proteção e governança digital.
O que é IA generativa e por que ela preocupa?
A IA generativa é uma tecnologia de aprendizado de máquina que utiliza modelos como GANs (Generative Adversarial Networks) e LLMs (Large Language Models) para criar novos conteúdos a partir de grandes volumes de dados.
Essa tecnologia pode ser usada para gerar vozes idênticas à de pessoas reais, vídeos com rostos trocados, e-mails convincentes e imagens com aparência autêntica, tudo com um grau de realismo impressionante.
Essa capacidade de imitar seres humanos de forma quase perfeita abre espaço para fraudes altamente convincentes, difíceis de serem identificadas com métodos tradicionais de segurança.
As preocupações aumentam à medida que empresas e líderes se tornam alvos de manipulação, chantagem e ataques de engenharia social potencializados pela IA.
Como a IA generativa tem sido usada em fraudes?
Com a popularização de ferramentas de IA, cibercriminosos vêm adaptando suas estratégias para explorar brechas técnicas e comportamentais em contextos empresariais e pessoais. A seguir, estão as principais formas de uso malicioso da IA generativa.
Phishing por voz e vídeo (deepfake)
Uma das aplicações mais alarmantes é o uso de IA para simular vozes e rostos. Com tecnologias de clonagem de voz e manipulação facial, criminosos conseguem criar vídeos falsos de executivos solicitando transferências bancárias urgentes ou gravações de voz que convencem funcionários a liberar acessos privilegiados.
Casos reais já demonstram o potencial desse tipo de ataque. Em 2025, um funcionário da empresa de engenharia no Reino Unido foi induzido a transferir o equivalente a US$ 25 milhões após participar de uma videoconferência com deepfakes de executivos e diretores, todos gerados por IA.
De forma semelhante, o The Guardian relatou que o CEO de uma das maiores empresas de publicidade do mundo foi alvo de uma tentativa de golpe por meio de vídeos e áudios falsos que imitavam sua voz e imagem.
Falsificação de documentos e identidades
A IA generativa também tem sido usada para criar documentos falsos, como carteiras de identidade, comprovantes de endereço e extratos bancários.
Essas falsificações alimentam golpes em bancos, fintechs e seguradoras, viabilizando fraudes em cadastros e abertura de contas fraudulentas.
Automação de e-mails e mensagens fraudulentas
Com modelos de linguagem como o ChatGPT, criminosos conseguem redigir e-mails de phishing altamente personalizados, com vocabulário adequado ao contexto da vítima.
Isso torna ataques de spear phishing ainda mais perigosos, pois elimina sinais tradicionais de golpes, como erros de gramática e linguagem genérica.
A dificuldade em detectar deepfakes
Pesquisas acadêmicas reforçam o risco. O estudo “Warning: Humans Cannot Reliably Detect Speech Deepfakes” demonstrou que pessoas conseguem identificar gravações falsas com apenas 73% de precisão, mostrando que até ouvintes atentos podem ser enganados (arXiv, 2023).
Impactos para empresas e profissionais
Os danos provocados por fraudes com IA vão além das perdas financeiras imediatas. Empresas enfrentam repercussões amplas em diversas frentes.
Riscos à reputação e à segurança de dados
Quando uma fraude ocorre, seja por voz, e-mail ou vídeo deepfake, a confiança em processos internos e na imagem da empresa é abalada.
Vazamentos de dados ou transferências indevidas podem gerar exposição na mídia, perda de clientes e queda de valor de mercado.
Ameaças à liderança corporativa e decisões estratégicas
Fraudes que envolvem a imagem de executivos ou falsificações de comunicação interna prejudicam a tomada de decisão e colocam em risco a cadeia de comando.
Além disso, ataques bem-sucedidos podem facilitar espionagem corporativa, com acesso a informações sensíveis ou projetos estratégicos.
Estratégias de proteção contra fraudes com IA
Atualmente, proteger-se não significa apenas adotar ferramentas básicas: é preciso unir tecnologia avançada, políticas internas bem estruturadas e uma cultura organizacional voltada à segurança.
A seguir, listamos as três frentes essenciais para construir uma defesa eficaz contra as fraudes impulsionadas por IA.
Treinamento e conscientização das equipes
Mesmo diante de sistemas automatizados e algoritmos sofisticados, o elo mais importante e vulnerável da segurança continua sendo o ser humano. Por isso, capacitar os colaboradores é uma prioridade estratégica.
Programas contínuos de conscientização devem ensinar a reconhecer sinais de manipulação digital: e-mails com urgência fora do padrão, vídeos de executivos solicitando transações suspeitas ou mensagens que imitam a linguagem de colegas.
Simulações de ataques baseados em IA, como deepfakes e phishing personalizados, ajudam a preparar as equipes para reagir de forma rápida e responsável.
Mais do que um treinamento pontual, o objetivo é criar uma cultura de resiliência comportamental, em que cada profissional compreende seu papel na proteção da empresa e mantém um estado constante de alerta e senso crítico.
Tecnologias de detecção e autenticação reforçada
Já existem sistemas capazes de identificar conteúdos gerados artificialmente por meio da análise de metadados, padrões de compressão, reflexos incorretos e outras sutilezas imperceptíveis a olho nu.
Além disso, fortalecer a autenticação é indispensável. Combinações de biometria, tokens físicos e autenticação multifator (MFA) reduzem as chances de acesso indevido, mesmo diante de tentativas sofisticadas de personificação.
Ferramentas como verificação por vídeo em tempo real com detecção de vivacidade e assinaturas criptográficas em comunicações sensíveis adicionam camadas de proteção importantes.
Empresas mais maduras em segurança também estão adotando modelos de IA defensiva, capazes de aprender o comportamento normal dos usuários e emitir alertas automáticos ao identificar ações suspeitas.
Políticas internas de Segurança da Informação
Nenhuma tecnologia é suficiente sem regras claras que orientem sua aplicação. Políticas de Segurança da Informação bem estruturadas funcionam como o alicerce das operações seguras, definindo responsabilidades, fluxos de validação e limites de acesso.
Essas políticas devem incluir protocolos rígidos para o uso de credenciais e autorizações financeiras, exigindo múltiplas confirmações em solicitações fora do padrão. Também é essencial manter governança sobre comunicações e dados, com autenticação obrigatória em e-mails corporativos, monitoramento de compartilhamentos e criptografia de ponta a ponta para informações críticas.
Essas diretrizes devem ser revisadas regularmente, testadas em simulações de incidentes e avaliadas com métricas de conformidade e eficácia. Só assim a empresa garante que suas defesas evoluam no mesmo ritmo das ameaças.
O papel da legislação e da governança
Compreender o que já está em vigor e acompanhar as regulamentações em desenvolvimento é essencial para que empresas e instituições atuem de forma responsável, segura e alinhada às normas de proteção de dados e transparência digital.
LGPD e outras regulamentações relevantes
No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) é o principal pilar da Segurança da Informação e da privacidade digital. Ela impõe a empresas e órgãos públicos o dever de proteger dados pessoais e sensíveis, aplicando controles técnicos e administrativos proporcionais aos riscos envolvidos.
Quando o assunto é fraude com IA — como deepfakes, clonagem de voz e perfis falsos — a LGPD ganha papel central, já que essas práticas frequentemente envolvem dados biométricos e informações pessoais, classificados como sensíveis pela própria lei.
Empresas que negligenciam a proteção desses dados podem ser responsabilizadas não só pelos danos diretos, mas também por omissões como falta de governança, ausência de criptografia, uso opaco de algoritmos ou falhas de monitoramento.
Além da LGPD, o Marco Civil da Internet e a Lei Carolina Dieckmann (Lei nº 12.737/2012) formam uma base jurídica complementar, permitindo a responsabilização de atividades fraudulentas no ambiente digital.
Responsabilidade de provedores e empresas
Com o crescimento da IA generativa, cresce também a pressão sobre as organizações que desenvolvem ou utilizam essas tecnologias. Surge uma questão central: quem responde quando a IA é usada para causar dano?
A União Europeia foi pioneira ao aprovar, em 2024, o AI Act, primeiro marco regulatório abrangente sobre inteligência artificial. A norma define critérios de transparência, classificação de risco e auditoria obrigatória para modelos generativos.
Soluções consideradas de alto risco, como sistemas que possam manipular identidades, opiniões públicas ou dados sensíveis, devem passar por certificações rigorosas e oferecer explicabilidade de seus algoritmos.
Empresas que se antecipam a essas normas, adotando programas internos de governança em IA, avaliações de impacto algorítmico e rastreabilidade de modelos, não apenas reduzem riscos jurídicos, mas também reforçam sua imagem de credibilidade e compromisso ético.
O futuro da segurança cibernética frente à IA generativa
O avanço da IA continuará a desafiar as barreiras tradicionais da cibersegurança. Os ataques devem se tornar mais personalizados, automatizados e difíceis de detectar. Por isso, empresas precisarão combinar tecnologias avançadas com uma cultura de segurança sólida.
Investir em soluções como MSS (Managed Security Services), monitoramento 24/7 com SIEM, auditorias constantes e treinamentos customizados será indispensável. A Clavis, especialista em cibersegurança, está preparada para apoiar empresas a enfrentar esse novo cenário com resiliência e estratégia.






