Escrito por Darlin Fernandes
A forma como os sistemas se comunicam mudou e, com ela, mudou também a forma como ataques acontecem. APIs deixaram de ser apenas um meio de integração e passaram a ser o principal canal de exposição de aplicações modernas. Hoje, praticamente toda arquitetura digital depende delas: aplicativos móveis, plataformas SaaS, sistemas financeiros e ambientes em nuvem.
Esse protagonismo, no entanto, veio acompanhado de um aumento expressivo no risco.
De acordo com o relatório State of API Security 2024 da Salt Security, 37% das organizações sofreram ao menos um incidente de segurança envolvendo APIs nos últimos 12 meses, mais que o dobro do registrado no ano anterior (17%). Esse dado não apenas evidencia o crescimento do problema, mas também mostra que APIs já são um vetor de ataque consolidado e não uma tendência futura.
Ao mesmo tempo, o cenário continua se agravando. O relatório API ThreatStats 2025 da Wallarm de 2025 apontou que vulnerabilidades relacionadas a APIs cresceram de forma explosiva, com um aumento de mais de 1.000% em falhas associadas a IA — e 99% delas ligadas diretamente a APIs .
Nesse contexto, entender os riscos e estruturar a proteção de APIs deixou de ser uma boa prática. Passou a ser uma necessidade operacional.
Por que as APIs são o alvo nº 1 dos cibercriminosos?
APIs concentram três elementos altamente valiosos para atacantes: acesso direto a sistemas, exposição de dados e execução de lógica de negócio.
Diferente de interfaces tradicionais, APIs são projetadas para serem acessadas programaticamente — o que significa que, na maioria dos casos, estão expostas diretamente à internet. Isso reduz barreiras e facilita a exploração automatizada.
Além disso, o crescimento acelerado desse ecossistema ampliou significativamente a superfície de ataque. Segundo dados da Cloudflare, APIs já representam mais de 57% do tráfego total da internet, evidenciando seu papel central na infraestrutura digital .
Outro ponto crítico é a falta de visibilidade. Muitas organizações não possuem inventário completo de suas APIs, especialmente em ambientes com microsserviços. Isso faz com que endpoints fiquem expostos sem monitoramento adequado.
Vulnerabilidades críticas: entendendo o OWASP API Security Top 10
O OWASP API Security Top 10 organiza os principais riscos associados a APIs com base em incidentes reais. O ponto central da lista não está apenas nas falhas técnicas, mas em problemas estruturais de design e controle.
BOLA (Broken Object Level Authorization)
Essa é considerada a vulnerabilidade mais crítica em APIs.
O problema ocorre quando a API não valida corretamente se o usuário tem permissão para acessar determinado recurso. Na prática, basta alterar um identificador (como um ID em uma requisição) para acessar dados de outros usuários. Esse tipo de falha é especialmente perigoso porque:
- É simples de explorar;
- Não depende de técnicas avançadas;
- Pode comprometer grandes volumes de dados rapidamente.
Broken Authentication: falhas em tokens JWT e chaves de API
Mecanismos de autenticação mal implementados continuam sendo uma das principais causas de incidentes.
Tokens JWT mal configurados, ausência de validação de assinatura ou exposição de chaves de API podem permitir que atacantes assumam identidades legítimas.
Esse tipo de falha é crítico porque transforma o atacante em um “usuário válido”, dificultando a detecção.
Excessive Data Exposure: quando a API entrega mais do que o necessário
APIs são projetadas para retornar dados, mas muitas retornam mais do que deveriam.
Esse problema ocorre quando a aplicação envia informações completas e delega ao cliente a responsabilidade de filtragem. Como resultado, dados sensíveis podem ser expostos mesmo sem intenção.
Esse tipo de vulnerabilidade não depende de exploração ativa — basta observar a resposta da API.
Ataques de Injeção em APIs: como acontecem e como evitar?
Apesar da evolução das arquiteturas, ataques clássicos continuam sendo extremamente eficazes. A principal razão é simples: a validação de entrada ainda é negligenciada.
Injeção de SQL e NoSQL em endpoints de busca
Endpoints de busca são alvos comuns porque recebem entradas diretamente do usuário. Quando essas entradas não são tratadas corretamente, podem ser utilizadas para manipular consultas ao banco de dados. Isso permite:
- Leitura de dados sensíveis;
- Modificação de registros;
- Bypass de autenticação.
Mesmo em ambientes modernos, esse tipo de ataque continua relevante — especialmente em APIs mal estruturadas.
Injeção de comandos e ataques de Cross-Site Scripting (XSS) via API
APIs também podem ser utilizadas como vetor para ataques indiretos. Dados maliciosos enviados via API podem ser processados por sistemas internos ou aplicações cliente, resultando em execução de scripts ou comandos.
Esse tipo de ataque amplia o impacto, pois não se limita à API — ele se propaga pelo ecossistema.
Melhores práticas para blindar sua arquitetura de APIs
Diante desse cenário, proteger APIs exige mais do que controles isolados. Não se trata apenas de “adicionar segurança”, mas de incorporá-la desde o desenho da arquitetura. APIs são, por natureza, pontos de exposição — e isso exige mecanismos que controlem quem acessa, como acessa e o que pode ser feito.
A seguir, algumas das principais práticas que ajudam a estruturar essa proteção de forma consistente.
Implementação de OAuth2 e OpenID Connect
OAuth2 e OpenID Connect são padrões amplamente utilizados para gerenciar autenticação e autorização em APIs, especialmente em ambientes modernos, com múltiplas aplicações e integrações.
Na prática, esses protocolos funcionam como um intermediário confiável. Em vez de a aplicação validar diretamente o usuário, ela delega essa responsabilidade a um serviço de autenticação, que emite tokens de acesso. Esses tokens carregam informações sobre o usuário e suas permissões. Isso traz dois ganhos importantes:
- Controle granular de acesso: é possível definir exatamente quais recursos cada usuário ou sistema pode acessar;
- Redução de exposição de credenciais: senhas não precisam ser compartilhadas entre serviços.
Além disso, o uso de tokens com tempo de expiração e escopos bem definidos reduz o impacto em caso de comprometimento.
Sem esse tipo de controle, APIs tendem a operar com permissões excessivas ou validações inconsistentes — o que abre espaço para exploração.
Rate Limiting e Throttling: protegendo contra força bruta e DDoS
Outro ponto crítico na segurança de APIs é o controle de volume de requisições.
APIs são projetadas para responder rapidamente a chamadas, o que também facilita o uso abusivo. Um atacante pode automatizar milhares de requisições por segundo para tentar:
- Adivinhar credenciais (força bruta);
- Explorar vulnerabilidades;
- Sobrecarregar o serviço (DDoS).
É aqui que entram o rate limiting e o throttling.
- Rate limiting define um limite de requisições por cliente em um determinado período (ex: 100 requisições por minuto).
- Throttling controla o comportamento quando esse limite é atingido, reduzindo a velocidade ou bloqueando novas chamadas.
Na prática, essas técnicas funcionam como um “controle de fluxo”, garantindo que a API continue disponível mesmo sob tentativa de abuso.
Além da proteção contra ataques, elas também ajudam a manter a estabilidade da aplicação, evitando que um único cliente consuma todos os recursos disponíveis.
Criptografia de ponta a ponta: TLS 1.3 e mTLS
A comunicação entre cliente e API precisa ser protegida contra interceptação. Sem criptografia, qualquer dado transmitido — incluindo tokens, credenciais e informações sensíveis — pode ser capturado por um atacante.
O uso de TLS 1.3 garante que toda comunicação seja criptografada, impedindo que terceiros consigam ler ou alterar os dados em trânsito. É o padrão atual de segurança para conexões na internet.
Mas, em ambientes mais críticos, isso pode não ser suficiente. É nesse ponto que entra o mTLS (Mutual TLS).
Diferente do TLS tradicional, onde apenas o servidor é autenticado, o mTLS exige autenticação mútua: tanto o cliente quanto o servidor precisa apresentar certificados válidos.
Na prática, isso significa que:
- Apenas sistemas autorizados conseguem se conectar à API;
- Mesmo que um endpoint esteja exposto, o acesso continua restrito.
Esse modelo é especialmente importante em integração entre sistemas internos, APIs críticas ou ambientes regulados.
Ao combinar essas práticas, a organização cria uma camada de proteção que vai além da prevenção básica. Em vez de reagir a ataques, a arquitetura passa a limitar ativamente o que pode ser explorado.
Segurança de APIs exige visibilidade contínua
O maior desafio na segurança de APIs não está apenas na proteção inicial, mas na capacidade de manter controle sobre um ambiente em constante mudança.
O número de APIs cresce rapidamente — e com ele, o risco. Sem visibilidade, é impossível responder perguntas essenciais:
- Quais APIs estão expostas?
- Quais vulnerabilidades existem?
- Quais representam risco real?
É nesse ponto que a gestão de vulnerabilidades se torna um elemento estratégico.
A Clavis atua apoiando organizações na identificação contínua de vulnerabilidades em APIs e ativos expostos, correlacionando essas informações com inteligência de ameaças e contexto de negócio.
Na prática, isso permite sair de uma abordagem baseada em volume — onde tudo parece crítico — para uma estratégia orientada por risco real.






