Escrito por Jarbas Carlos
A transformação digital do setor de energia avançou rapidamente nos últimos anos. Redes inteligentes, automação industrial, sensores conectados e sistemas de monitoramento remoto passaram a fazer parte da operação de usinas, refinarias, parques eólicos e distribuidoras de energia.
Ao mesmo tempo em que essa evolução aumenta eficiência e capacidade operacional, ela também amplia a superfície de ataque de um dos segmentos mais críticos da infraestrutura global.
Esse cenário já vem sendo refletido nos números. Segundo o Energy & Utilities Threat Landscape Report 2025, o setor reportou 187 incidentes de ransomware ao longo do ano, além de dezenas de casos envolvendo acessos indevidos a infraestruturas críticas e vazamento de dados.
Outro dado relevante aparece no relatório 2025 Trustwave Risk Radar Report: Energy and Utilities Sector, que aponta um crescimento de 80% nos ataques de ransomware direcionados a empresas de energia e utilities em relação ao ano anterior. O estudo relaciona esse aumento principalmente à convergência entre ambientes IT e OT e à presença de infraestruturas legadas.
Nesse contexto, a segurança cibernética deixa de ser apenas uma preocupação tecnológica e passa a ser um elemento estratégico para continuidade operacional, estabilidade econômica e segurança nacional.
A vulnerabilidade da infraestrutura crítica energética
O setor de energia ocupa hoje uma posição central nas discussões sobre infraestrutura crítica. Diferente de outros segmentos, um incidente nesse ambiente não impacta apenas uma empresa: ele pode afetar abastecimento, transporte, indústria e serviços essenciais.
A digitalização acelerada ampliou esse desafio. Ambientes antes isolados passaram a operar conectados, integrando sistemas industriais, sensores, plataformas de monitoramento e aplicações corporativas. Na prática, isso significa que um ataque cibernético pode ultrapassar o ambiente digital e gerar efeitos físicos reais.
Por que o setor de energia é um dos principais alvos de ataques de Estado-nação?
Infraestruturas energéticas possuem alto valor estratégico. Comprometer operações desse setor pode gerar instabilidade econômica, pressão política e impacto social em larga escala.
Por esse motivo, o segmento passou a ser alvo frequente de grupos associados a interesses geopolíticos e operações patrocinadas por Estados. Em muitos casos, o objetivo não é apenas causar indisponibilidade, mas demonstrar capacidade operacional e ampliar influência sobre infraestruturas consideradas essenciais.
Além disso, muitos ambientes energéticos ainda dependem de sistemas industriais antigos, desenvolvidos em uma época em que conectividade e exposição à internet não eram preocupações relevantes. Protocolos industriais frequentemente operam sem mecanismos modernos de autenticação e criptografia, enquanto equipamentos críticos podem permanecer anos sem atualização devido ao risco operacional envolvido em interrupções.
Isso cria um cenário complexo: ao mesmo tempo em que a conectividade aumenta eficiência, ela também amplia os pontos de entrada possíveis para atacantes.
A convergência IT/OT: quando o digital encontra o físico
Historicamente, ambientes de Tecnologia da Informação (IT) e Tecnologia Operacional (OT) operavam de forma separada. Hoje, essa separação passou a ser cada vez menos rígida.
Sistemas industriais passaram a se integrar com ERPs, plataformas analíticas, ferramentas de monitoramento remoto e ambientes em nuvem. Essa convergência trouxe ganhos relevantes de eficiência operacional, mas também ampliou significativamente a superfície de ataque.
Na prática, um incidente iniciado em um ambiente administrativo pode alcançar sistemas responsáveis pelo controle de subestações, monitoramento de pressão em gasodutos ou gerenciamento de carga elétrica.
Esse é um dos maiores desafios atuais do setor energético: proteger ambientes onde o impacto de um incidente vai além da indisponibilidade digital e pode atingir diretamente operações físicas.
Riscos específicos no segmento de óleo e gás (Upstream e Downstream)
Dentro do setor energético, óleo e gás apresenta desafios ainda mais sensíveis devido à complexidade operacional e ao impacto potencial de interrupções.
Desde operações offshore até refinarias e sistemas de distribuição, a dependência de automação industrial é cada vez maior. Isso significa que falhas de segurança podem afetar não apenas sistemas corporativos, mas também processos industriais críticos.
Proteção de poços de petróleo e plataformas offshore contra sabotagem digital
Ambientes offshore dependem fortemente de sistemas automatizados para monitoramento e controle operacional. Sensores industriais, plataformas SCADA e sistemas de controle remoto fazem parte da rotina operacional dessas estruturas.
Nesse contexto, ataques direcionados podem comprometer monitoramento de pressão, sistemas de comunicação e controles industriais responsáveis pela operação dos ativos.
Além do impacto financeiro, existe um fator ainda mais sensível: o risco operacional e ambiental. Uma interrupção em ambientes offshore pode afetar diretamente a segurança física, continuidade operacional e integridade ambiental.
Outro ponto importante é a conectividade. Plataformas modernas operam integradas a ambientes terrestres, aumentando a exposição a ameaças externas e exigindo monitoramento contínuo sobre ativos OT.
Segurança em gasodutos e refinarias: evitando o impacto ambiental e econômico
Gasodutos e refinarias representam alvos estratégicos devido à criticidade operacional e ao potencial de impacto econômico.
Interrupções nesses ambientes podem gerar paralisação de abastecimento, impacto na cadeia logística, prejuízos financeiros e riscos ambientais relevantes. Em ambientes industriais, ransomware se torna particularmente perigoso porque a indisponibilidade operacional pode afetar diretamente processos físicos.
Além disso, muitos sistemas industriais presentes nesses ambientes foram desenvolvidos antes da adoção de práticas modernas de segurança. Isso dificulta segmentação adequada, atualização de sistemas e implementação de mecanismos avançados de proteção.
O desafio deixa de ser apenas impedir invasões e passa a envolver resiliência operacional e capacidade de resposta rápida diante de incidentes.
Cibersegurança em energia renovável e transição energética
A expansão das energias renováveis trouxe novos desafios para o setor. Usinas solares, parques eólicos e sistemas distribuídos dependem fortemente de conectividade, automação e gerenciamento remoto.
Isso amplia a eficiência operacional, mas também aumenta a superfície de ataque.
Vulnerabilidades em usinas solares e parques eólicos conectados
Ambientes de geração renovável utilizam controladores industriais, sensores IoT, plataformas em nuvem e sistemas SCADA integrados.
Esse modelo cria uma arquitetura altamente distribuída e conectada. Quanto maior a conectividade, maior a necessidade de visibilidade e monitoramento contínuo.
Outro fator importante é a heterogeneidade dos ambientes. Muitos equipamentos são desenvolvidos por fornecedores distintos, operando com diferentes padrões de segurança e ciclos de atualização.
Na prática, isso dificulta padronização de controles e amplia o risco de exposição de ativos críticos.
Riscos em sistemas de armazenamento de energia (BESS)
Os sistemas BESS (Battery Energy Storage Systems) ganharam protagonismo na estabilidade das redes elétricas modernas.
Esses ambientes dependem de monitoramento constante de carga, temperatura e desempenho operacional. Uma falha de segurança nesses sistemas pode afetar não apenas a disponibilidade, mas também a segurança física da operação.
À medida que sistemas de armazenamento se tornam mais integrados às smart grids (redes elétricas inteligentes), cresce também a necessidade de proteção contra acessos indevidos, manipulação operacional e ataques direcionados.
Protegendo a rede elétrica inteligente (Smart grids)
As smart grids representam uma das maiores transformações do setor energético moderno. Sensores distribuídos, automação e comunicação em tempo real permitem maior eficiência operacional e melhor gestão de demanda.
Por outro lado, aumentam significativamente a complexidade de proteção.
Protocolos de comunicação industriais e a segurança de subestações
Grande parte da infraestrutura energética ainda opera utilizando protocolos industriais legados desenvolvidos em uma época em que segurança cibernética não era uma prioridade operacional. Muitos desses protocolos foram criados sem mecanismos robustos de autenticação, validação de integridade e criptografia, priorizando disponibilidade e continuidade da operação em vez de proteção contra ameaças externas.
Protocolos como Modbus, DNP3 e IEC 60870 priorizam disponibilidade e funcionalidade operacional — não autenticação ou criptografia robusta. Isso significa que muitos ambientes ainda apresentam comunicação sem proteção adequada e controles limitados de autenticação e autorização.
Subestações elétricas se tornaram pontos críticos nesse contexto, especialmente em ambientes altamente integrados entre OT e sistemas corporativos. Além disso, a dificuldade de interromper operações para atualização de sistemas faz com que muitas vulnerabilidades permaneçam expostas por longos períodos.
O perigo dos ataques de ransomware em sistemas de despacho de carga
Ataques de ransomware assumem impacto operacional significativamente mais crítico.
Quando sistemas de despacho e gerenciamento de carga são comprometidos, o risco inclui indisponibilidade operacional, interrupção de distribuição e impacto em serviços essenciais.
Esse cenário explica o aumento do interesse de grupos criminosos por infraestrutura crítica. Diferente de outros segmentos, uma interrupção operacional no setor energético pode afetar diretamente a economia, transporte, telecomunicações e abastecimento.
O risco deixa de ser apenas corporativo e passa a ter impacto sistêmico.
Melhores práticas e frameworks para o setor de energia
Diante desse cenário, proteger ambientes energéticos exige uma abordagem contínua e integrada. Segurança precisa ser tratada como parte da operação — e não apenas como uma camada adicional de tecnologia.
Implementação do NIST Cybersecurity Framework for Energy
O NIST Cybersecurity Framework tornou-se uma das principais referências para o setor energético por permitir estruturar segurança considerando tanto ambientes IT quanto OT.
Sua abordagem baseada em identificação, proteção, detecção, resposta e recuperação ajuda organizações a desenvolver controles alinhados ao risco operacional.
No setor energético, isso é particularmente importante devido à necessidade de equilibrar disponibilidade operacional e proteção.
Além disso, frameworks específicos para ambientes industriais, como ISA/IEC 62443, vêm ganhando relevância ao trazer diretrizes voltadas para segmentação, controle de acesso e segurança em sistemas industriais críticos.
Gestão de incidentes e planos de resiliência operacional
Em ambientes de infraestrutura crítica, a capacidade de responder e recuperar-se rapidamente tornou-se tão importante quanto a própria prevenção.
Por isso, planos de resposta e continuidade operacional se tornaram elementos essenciais da estratégia de segurança. Isso inclui monitoramento contínuo, visibilidade sobre ativos industriais, segmentação adequada entre IT e OT e processos estruturados de gestão de vulnerabilidades.
Nesse contexto, a frente de Cibersegurança em OT da Clavis atua apoiando organizações na proteção de ambientes industriais e infraestruturas críticas, com uma abordagem alinhada à ISA/IEC 62443 e focada em visibilidade, segmentação e redução de risco operacional.
A atuação envolve descoberta passiva de ativos industriais, modelagem de zonas e conduítes, identificação de vulnerabilidades específicas de OT e integração entre monitoramento IT e OT — permitindo ampliar visibilidade sem impacto operacional nos ambientes industriais.
Além disso, a integração com monitoramento contínuo e análise contextual permite identificar comportamentos anômalos e reduzir o tempo de resposta diante de ameaças direcionadas a infraestruturas críticas.
À medida que o setor energético se torna mais conectado, visibilidade, resiliência e capacidade de resposta deixam de ser diferenciais e passam a ser elementos essenciais para continuidade operacional e segurança da infraestrutura crítica.






